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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cabeleira

Miguel Sanches Neto Escritor e filho de Coração da nossa Peabiru.

Meu pai, ainda chorando, me disse vá e corte o cabelo. Tentei ficar com ele mais algum tempo, embora continuas­se repetindo vá e corte o cabelo. Mesmo de olho fechado ou arrumando as flores do caixão ou trocando as velas gastas ou comendo pão com carne moída e tomando café frio ele só repetia vá e corte o cabelo. Durante a noite toda eu ouvi esta ordem sem poder cumpri-la. Tive que esperar o dia nascer para encontrar alguém que estivesse disposto a tosar meus cabelos loiros e encaracolados que desciam até perto da cintura. O pai dizia que meu cabelo tinha o tamanho do sofrimento da mãe e que era hora de cortá-lo bem curto. O mais curto possível. Acredito que ele queria que eu rapasse a cabeça, não deixando nenhum vestígio desta obscena cabeleira, como dizia minha avó.

Eu também queria acabar com ela, pois todo mundo se divertia com meu aspecto. Os poucos amigos me chamavam de maricas e isto fere muito a gente. Papai tinha consciência de que eu estava sofrendo por algo que não era responsabilidade de ninguém e ficava triste.

Foi então que ele me disse, enxugando as lágrimas com as fraldas da camisa, vá e corte o cabelo bem baixinho, meu filho. E eu esperei até amanhecer, porque não havia ninguém que pudesse cortá-lo. Mas o pai não compreendia esta diferen­ça entre dia e noite, só desejava que eu cortasse o cabelo e então dizia, entre bravo e desanimado, vá e corte, e eu não po­dendo, por algum tempo, fazer aquilo que mais dese­já­vamos.­

Quando mamãe ainda tinha forças, eu me sentava em sua cama e ela, recostada em almofadas, me penteava. Nessas horas, era bom ter tão vasta cabeleira que necessitava de cuidados e carinhos. A mãe, de certa maneira, se sentia culpada pela deformação de meus traços masculinos. Eu nunca tinha ido à escola, mesmo já tendo doze anos, para não ser motivo de gracinhas. Uma prima mais velha me ensinou a ler e escrever em casa. Mesmo assim, sempre havia alguém para importunar.

Foi então que o pai disse vá, menino, e corte essa porcaria que não resolveu nada. Enquanto o dia não clarea­va, tive que ouvir a mesma ordem, como um disco que repete uma única faixa. Quando as pessoas vinham lhe dar os pêsames ou perguntar sobre os preparativos para o enterro ou se informar sobre a localização do banheiro ou pedir maiores detalhes sobre a morte ou exigir que se consolasse, o pai apenas repetia, mesmo que eu não estivesse por perto, vá e corte, ou, esse cabelo é o sofrimento dela e você não tem o direito de me fazer lembrar de tudo novamente, ou, vá, corte este emaranhado de dias e dores.

O pai não entendia que para mim os cabelos longos tinham um duplo sentido — recordavam os sofrimentos mas também o carinho de mamãe. Eu queria cortar, apesar de não sentir raiva deles — apenas vergonha.

Foi então que o pai, com a boca cheia de pão, me disse vá e corte essa merda. Ao dizer estas palavras, notei que estava com vontade de arrancar meus cabelos com as mãos. Saí de perto e fiquei ouvindo a mesma frase até que o dia amanheceu e eu enfim pude cortar o cabelo.

Minha mãe só teve um filho e, quatro anos após meu nascimento, ficou muito doente, desenganada pelos médicos. Tentaram de tudo e por fim recorreram à fé. Papai fez uma promessa a não sei que santo: meu cabelo não seria cortado até que ela sarasse. Era uma maneira de sacrificar o filho, como nas sagradas escrituras — me disseram.

Foi por isso que meu pai, quando mamãe morreu, oito anos depois da promessa, me disse vá e corte o cabelo, agora não precisamos mais de seu sacrifício. O pai não sabia dizer outra coisa, somente a mesma ordem que eu não podia obedecer, pois era noite, e ele, sem entender, ficava remoendo aquele estribilho levemente alterado.

Não se importou comigo, não me fez nenhum carinho enquanto estive no velório. Acho que queria se afastar de mim. Pra ele, eu era a assombração de mamãe. Por isso dizia vá e corte, tentando fazer com que eu desaparecesse de sua frente.­

Quando o sol nasceu e o comércio abriu, fui ao centro de Peabiru, passando sobre a imensa valeta que cruza a avenida principal. Entrei no pequeno salão e me sentei na cadeira. O barbeiro trabalhou com rapidez, enquanto eu olhava os cachos pelo chão. Resolvi pegar um e pôr no bolso (é aquele que guardo na caixinha, dentro da gaveta da cômoda). O resto podia ser jogado fora.

Descobri, através do espelho, uma outra pessoa que se escondia sob minha cabeleira.

Na volta, vim caminhando de uma forma diferente e até cheguei a assobiar uma música da moda, como se eu, transformado e desconhecido, não tivesse nada a ver com o que estava acontecendo.

Foi então que, me vendo de cabelo curto, meu pai me abraçou e me beijou, dizendo que bom que você veio. E, sentados diante do caixão, ficamos olhando para mamãe, também ela sem seus lindos cabelos, caídos depois do tratamento.

Miguel Sanches Neto

Filho de coração da nossa Peabiru

Peabiru no Rumo Certo Agradece a Você Miguel Sanches um dos escritores mais respeitados do Brasil e colunista da Gazeta do Povo (Curitiba) por fazer parte deste Blog valeu.

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Peabiru, Peabiru, Terra amada varonil Peabiru, oh! Minha terra Pedacinho do Brasil. O amor aqui impera E o trabalho nos Conduz A um pedestal de gloria Por um caminho de luz. Liberdade no horizonte No céu um formoso azul Terras férteis. Rios, fontes És uma estrela do sul Peabiru, Peabiru, Terra amada varonil Peabiru oh! Minha terra Pedacinho do Brasil. Teu nome emoção encerra És caminho do sertão És meu berço, minha terra És a minha inspiração. Laboriosa e hospitaleira Destemida e varonil É a gente desta terra Também filhos do Brasil. Peabiru, Peabiru.....